Um blogue na sua segunda época e agora sem objectivos materialistas e apostas por resolver. Pancadinhas no ombro, sentimentos de desilusão e mágoa e bilhetes para o próximo jogo do Sporting podem ser enviados para adeuscianeto@gmail.com

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Em chamas

A minha arrogância não podia trazer bons resultados. Não estive sequer perto de ser o primeiro a escrever vitrocerâmica num blogue e não estou a falar de blogues de imobiliárias ou de gente que quer vender a casa. Logo o primeiro que me aparece em destaque é uma coisa chamada Diário de uma Divorciada. Não é possível competir com uma coisa destas, penso eu logo à partida e bem, mas depois entro no blogue procuro o post em questão e a coisa ainda se agrava. É uma situação triste e mesmo que alguém tenha escrito num blogue absolutamente público que o ex-marido é um inútil que nem com uma placa de vitrocerâmica se entende, não deixo de sentir um certo desconfortozinho voyeur e desligo o blogue rapidamente. Ainda havia mais alguns resultados na lista, de blogues com rubricas como Dramas do Mulherio, Retaliações ou Problemas Domésticos, mas depois daquele primeiro não tive coragem para abrir mais nenhum (bom, li uma linha daquele das Retaliações, porque aparecia na página da pesquisa e dizia isto: «A mulher, quando saía de casa, levava consigo os bicos do fogão para que o marido não conseguisse aquecer a sopa». Isto é sério?, alguém sabe?).

Enfim, aquele primeiro post continuou a causar-me estranheza, porque de facto, que tipo de homem é que não se entende com um fogão em vitrocerâmica? É que eu estava convencido que a Fagor ou alguém assim tinha pensado exclusivamente nos homens quando inventou este fogão. Foram sempre mulheres que vi torcerem o nariz a esta maravilha da tecnologia, porque "não é a mesma coisa". Obrigado, claro que não é a mesma coisa, mas ninguém consegue dizer com firmeza que é pior.

Há a questão de não ter fogo. Tem uma placa negra assustadora que ao rodar um botão reflecte um bocadinho do inferno ali na cozinha, e, garanto-vos, chega a dar algum medo nas primeiras vezes. Só que não há uma única chama. Quando me mudei para esta casa vinha de uma longa tradição de fogões a gás, um dos quais com dois bicos apenas e fabricado na Fundição de Oeiras. Mas quando tive que comprar pela primeira vez electrodomésticos e fui apresentado àquele hino à limpeza fácil, nem pensei duas vezes e cheguei a dar por mim a imaginar uma casa livre de gás. Se optasse por não ter esquentador estaria livre de contas do gás e de instalações chatas de gás natural ou de andar a pensar em botijas. Um mundo de vantagens, mas alguma coisa parecia muito errada naquele cenário.

Acabei por instalar um esquentador a gás e só determinado dia, passados muitos meses, talvez anos, é que me descobri em casa sem isqueiro. Após alguns exercícios patetas e perigosos na inútil placa do meu fogão, lembrei-me em êxtase que restava ainda esse resistente da chama. Claro que o que não me restou foi um pingo de dignidade, enquanto abria a torneira para ter lume, deixava a água a correr, e praticamente encostava a cabeça ao esquentador no que me parecia ser sempre um convite para uma explosão em cheio na minha cara (eu não sou nada pessimista, mas há situações que promovem este tipo de imagens mentais). Há muitos milhares de anos que os lares das pessoas têm sempre qualquer tipo de chama e se calhar há uma razão para isso. Com o extra de que se for fumador pode estar a correr o risco de um dos piores pesadelos da classe. Ter cigarros e não poder acendê-los.