Um blogue na sua segunda época e agora sem objectivos materialistas e apostas por resolver. Pancadinhas no ombro, sentimentos de desilusão e mágoa e bilhetes para o próximo jogo do Sporting podem ser enviados para adeuscianeto@gmail.com

domingo, 4 de maio de 2008

Burning


O meu amigo Sérgio imagina o que será um bola de fogo a sair do esquentador em direcção às suas fuças. Eu posso explicar-lhe o que isso é e dar-lhe até a receita para o conseguir.

Só precisa de um esquentador em mau estado, sem isqueiro nem essas modernices de faíscas hidrodinâmicas ou pilhas, e de uma instalação de água quente. E também uma estupenda dose de estupidez. Quando tiver o material pronto a ser usado, experimente abrir a torneira de água quente e dirigir-se para a banheira. Quando reparar que a água está fria (se tiver sorte, isto acontece ainda antes de entrar no duche) saia da casa de banho e vá à cozinha verificar que o esquentador está apagado mas que continua a puxar o gás. Agora tem de ser rápido: antes que esse gás se dissipe, acenda um fósforo e espreite para dentro do esquentador para ver onde está o piloto.

Saboreie bem a breve parcela de segundo que se segue. Há uma ligeiríssima décalage entre o pensar que vai levar com uma chama nas trombas e o levar, efectivamente com a chama nas trombas. Se tiver sorte, a coisa passa tão depressa como um abrir e fechar de olhos e só se apercebe de que acaba de correr risco de vida quando nota um cheiro esquisito a carne queimada ou quando passa a mão pelas sobrancelhas e fica com uma mancha disforme de pêlos chamuscados na mão.

Prepara-se para ser gozado severa e alarvemente pelos seus companheiros de casa – eles riem-se para tentar evitar o facto de que o esquentador lhes pode fazer o mesmo serviço.

Agora tem duas notas mentais a fixar – se for preciso, escreva-as 100 vezes na parede: “Não vou acender o esquentador logo a seguir a fechar a torneira de água quente” e “Não vou pôr a cara em frente ao aparelho quando estou a acender a chama piloto”. Se isto lhe acontecer escassos dias depois de ter caído a um rio numa noite de Inverno, nem pense em deixar de fumar. O stress seria demasiado intenso. Adie essa decisão para uns seis ou sete anos mais tarde e aproveite bem cada cigarro.