Um blogue na sua segunda época e agora sem objectivos materialistas e apostas por resolver. Pancadinhas no ombro, sentimentos de desilusão e mágoa e bilhetes para o próximo jogo do Sporting podem ser enviados para adeuscianeto@gmail.com

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Juro que não tenho cinco anos, mas há coisas simples que me deixam muito surpreendido.

Foi uma semana duríssima, uma coisa extraordinária, e apesar do torcicolo ser já um problema do passado (recente) descobri que ao contrário do que pensava, a falta de tempo é mais amiga dos cigarros do que o ócio. Cada intervalo de dez minutos em que podia estar sem fazer absolutamente nada (penso que terei tido entre um a dois destes intervalinhos no total da semana) era um convite a um Camel fumado com a mente em branco, uma coisa parecida com o copo de água do despertar. Claro que sou já uma pessoa crescida nisto da resistência - fizemos no sábado passado 90 dias certinhos - e rapidamente volto ao normal sem recorrer a actos heróicos.

No entanto dormi pouco quase sempre e andei muito na rua. O meu leitor de mp3 continua com os mesmos oito álbuns (só tem 1GB) e eu já não os posso ouvir. Forma figurada de falar - ouço na mesma, que remédio - mas agora sei tudo sobre três ou quatro discos e há um ou dois, que até eram bons mas que morreram para sempre. Aconteceu-me nos últimos dois dias uma coisa menos habitual que foi andar de fato. Bom, andar de calças, camisa e casaco (diz-se blazer?), mas eu, um tipo que andou de calças de ganga e t-shirt na maior parte da sua existência, achei tudo isto uma grande novidade, pelo menos sem beberete, missa e copo d'água durante a tarde. Já se vê, por isto e pelos westerns, que descubro a pólvora a cada esquina, mas fico sinceramente impressionado com o conforto de roupa aparentemente tão desconfortável, sobretudo as calças. Não quero ser rude nem óbvio só que um homem sente-se seguro quando veste calças assim, embora a escolha dos boxers talvez tenha que ser mais criteriosa do que numas - agora, para mim - estranhamente universais calças de ganga.

Também é mesmo verdade, embora para isso já estivesse preparado, que as pessoas me falam de outra maneira, e não fico nada ofendido. Não só foi por isso mesmo e para poupar tempo que fui ter com essas pessoas assim vestido, como até eu fico muito mais impressionado comigo próprio, provavelmente por uma ilusão de competência de que felizmente só eu sei a verdade. Também pareço mais alto (portanto devo parecer ter uns 2,12 m) e mais magro.

Só não contava com os sapatos. Quem diz t-shirt e calças de ganga toda a vida, também diz sapatilhas a acompanhar e eu fui apanhado desprevenido pelos assassinos dos sapatos pelo que não tardei a coxear das duas pernas e a andar com grande dificuldade pelas ruas de Lisboa. O sofrimento (que me fez pensar num cigarro, como faz sempre) foi crescendo e no metro do Marquês, já quase no meu destino mas também já a arrastar-me, sou abordado por um sujeito que me disse que eu não podia viver desta maneira. Disse-me estas palavras num brasileiro paulista ou de Belo Horizonte, não sei dizer bem, mas era daqueles que carregam nos xx e que parecem americanos a tentar falar português, e agarrou-me no braço com franca solidariedade. Disse chamar-se Abinoan (pela minha saúde, ele soletrou e tudo) e quis que eu ficasse com o seu número de telefone, porque para minha sorte, ia ele dizendo, era especialista em reflexologia, shiatsu e massagens no geral, e que por 50 euros eu podia deslocar-me a sua casa em Algés, onde ele tinha óptimos óleos, uma música relaxante e que eu saíria de lá com um espírito e ego novos. E acho que também deixava de coxear. Nem por um segundo duvidei das boas intenções do Abinoan que transbordava honestidade a cada palavra, mas recusei educadamente. Aliás, não foi bem recusar, mas tentei explicar-lhe em vão que o problema era pontual e a causa estava bem identificada, mas não havia nada a fazer que o homem vendia massagens, não vendia sapatos. Optei por nem lhe falar do torcicolo, porque nesse caso o sentido de missão do Abinoan podia ser demasiado. Já tinha saudades de andar a pé por Lisboa durante o dia.