Um blogue na sua segunda época e agora sem objectivos materialistas e apostas por resolver. Pancadinhas no ombro, sentimentos de desilusão e mágoa e bilhetes para o próximo jogo do Sporting podem ser enviados para adeuscianeto@gmail.com

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Aqui não entras tu!!!! *


Levantaram-se os padrecas, os hipócritas, os indignadinhos. Veio o sindicato dos tuberculosos, mais a liga ariana do pulmão e a brigada de extermínio da nicotina. De repente, o assunto do dia já não era o facto de os combustíveis de todas as gasolineiras terem subido 3 cêntimos pela calada da noite. O que realmente interessava era o facto de o Sócrates ter fumado um cigarro num avião fretado pelo Estado para ir ver o país do sr. Chávez.

O senhor com voz de desenho animado que nos governa mostrou ontem a fibra de que não é feito. Como ex-fumador militante, considero a atitude do inquilino de São Bento pouco menos que revoltante. Em vez de mandar esse coro de meninos delatores irem acampar nesse tenebroso lugar onde o sol não brilha, decidiu entrar no esquema. Disse que desconhecia que havia regulamentos da aviação que proíbem o cigarro a bordo (pois, esta deve ser para aí a segunda vez que o cavalheiro faz uma viagem de longo curso e não está habituado). Pediu desculpa e, pior ainda, veio dizer que ia deixar de fumar. Que coisa tão absolutamente deprimente.

Espero agora que essa corja de padrecas que viajaram com ele controlem ao milímetro a viagem de regresso. Espero que contem todas as gotas de suor que se vão formar na testa do PM nas horas de voo em que o senhor vai pensar em fumar sem ter hipótese de o fazer. Porque o homem pôs-se a jeito e merece sofrer. Quem capitula assim perante os abutres merece ser devorado. Neste blogue de ex-fumadores não há lugar para hipócritas, por muito jogging marketeiro que façam por essas capitais fora.

* título roubado sem vergonha ao camarada Sérgio, que me concedeu a graça de reagir ao caso relatado, em nome da decência deste blogue

terça-feira, 13 de maio de 2008

Have some respect please!!

Há dois tipos de fumadores que deviam ser proibidos de existir: os de ocasião e os que alternam longos períodos de abstinência com igualmente longos períodos de tabagismo, alternando ente uns e outros com irritantíssima facilidade. Esta gente não tem respeito pelo sacrifício alheio. São uns exibicionistas puros, convencidos de que conseguem o melhor de dois mundos - o prazer da nicotina e a limpeza da caixa torácica. E o pior é que há quem o consiga.

Infelizmente, conto entre os meus amigos com exemplares de ambas as espécies. Um deles pratica há cerca de dois anos a obscena rotina de começar a fumar à sexta-feira à noite, interrompendo o vício até à noite de sábado seguinte. De domingo a quinta-feira não toca em tabaco, apesar de ser capaz de fumar um maço numa noite, se a cerveja a isso obrigar. A meu único consolo é que o rapaz fuma Português Azul – uma dessas marcas a que antes chamavam “lights” e que eu nunca percebi porque é que as pessoas fumam, podendo elas comprar tabaco verdadeiro pelo mesmo preço.

Outro cafageste com quem privo amiúde acaba de voltar a fumar, após um período de seis ou sete meses sem meter um rolinho de nicotina nos beiços. Justifica o facto de ter deixado de fumar com um inacreditável “os cigarros já não me sabiam bem”, como se os dias de um fumador alguma vez se contassem só pelos bons cigarros. Agora diz que lhe “voltou a apetecer fumar”. Já não é a primeira vez que o artista faz este número de circo, o que é deveras arreliante.

Devia ser implementado um código de conduta para estas merdas. A preto e branco. O u fumas ou não fumas. Salta pocinhas é coisa que me arrelia solenemente.

Fumo

Os argumentos dos não fumadores na defesa da lei do tabaco são tão imbatíveis quanto desonestos. Saúde, cheiro, desconforto... Quem é que pode combater isto, com argumentos egoístas como sossego, prazer, hábito? É isto que é estranho em toda esta discussão. As pessoas fumam às portas dos restaurantes e cafés, saem rapidamente da mesa depois das refeições, interrompem-se conversas. São estes os argumentos mesquinhos que eu, até um ex-fumador, tenho para apresentar contra a lei porque, por mero caprticho romântico, prefiro cafés com algum fumo, chão com algum lixo e nem tenho náuseas se um taberneiro pegar num queijo com a mão antes de o servir. Não se ganha nada tradicional ou culturalmente em manter estas coisas, pelo contrário, mas há conjuntos que só existem com os elementos todos. O post anterior só menciona cigarros marginalmente, na fotografia. Aquela imagem é uma desculpa para o post e vice-versa. Gosto muito daquele Sinatra a acenar (ou simplesmente a cantar, não sei bem) e a composição sem o fumo não era a mesma. Nem nenhuma outra de Herman Leonard o era. O jazz sem fumo é uma outra coisa, mais nova e talvez melhor (os sopros por definição devem ficar a ganhar num ambiente sem fumo), mas sem alguma coisa que, prova-o Leonard a seguir, está lá a participar naquelas histórias.





Dexter Gordon, Ella Fitzgerald a cantar para Duke Ellington e Benny Goodman, Dizzy Gillespie e Johnny Hodges.


segunda-feira, 12 de maio de 2008

Outros adeus

Por foleiro que seja eu ainda sou uma pessoa que se sensibiliza com momentos simbólicos como o foi ver ontem o Rui Costa a jogar os últimos minutos. Enquanto ele rematava furiosamente à baliza para marcar um último golo, ia eu visualizando o Rui Costa a jogar à bola contra o Parma em 1993, a primeira vez que vi o Benfica no estádio. Imagino que já ninguém se lembre, mas naquela altura, entre 1990 e 1994, era extremamente careta ser do Benfica para um miúdo, sobretudo em relação ao Sporting. Apesar das finais de 87 e de 90, apesar do jogo com o Arsenal e com o Leverkussen e apesar de ganharmos o campeonato praticamente de dois em dois anos, o Sporting fez dos seus jogadores, adeptos, escolas e o diabo uma fábrica de coolness. Era quase impossível combater o Figo, Capucho, Filipe, Nelson, até o Paulo Sousa depois. Mas só quase impossível, que tinhamos connosco o Rui Costa imperturbável a ser o maior sem andar em revistas, já casado, um gajo já um bocado à nossa frente. Toda a gente queria ter o Rui Costa (como o Benfica o tinha, claro), e estas unanimidades são raras.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Bored

Não cheguei ao fato, mas passei boa parte da semana a praticar um desporto que me destrói a paciência: usar uma camisa por dentro das calças. Não consigo compreender como é que se consegue fazer essa coisa com dignidade. Ou fico com um ar de balão insuflado ou irremediavelmente desfraldado de um dos lados o que, seja como for, me faz sentir muito ridículo.

A desculpa para a farpela melhorada (mas não muito) foi uma conferência internacional decorrida em Lisboa, onde, por razões profissionais me vi obrigado a ouvir um dos piores tipos de discurso que conheço - o dos professores de ciências sociais portugueses. Com raras excepções - e felizmente houve-as na dita conferência - o académico português vai a um evento destes para demonstrar que domina todo o impenetrável jargão da sabedoria científica lusa, para quem a forma é tudo. É inacreditavelmente difícil manter os olhos abertos às duas da tarde, quando ouvimos um professor dizer a outro "gostei muito da sua taxinomia".

Como já demasiadas vezes constatei, os académicos estrangeiros têm uma postura e um discurso completamente diferentes. Falam simples, querem falar simples, percebe-se o que eles querem dizer, têm coisas para dizer.

Não é por eles que invejo os que se levantam a meio da conferência para vir cá fora fumar. Basta-lhes isso para justificar o gesto. Eu tenho de inventar um telefonema imprevisto ou fingir-me ocupado com algum pensamento importante, para tentar disfarçar o facto de que estou aborrecido de morte. E a camisa cada vez mais indomada.

Juro que não tenho cinco anos, mas há coisas simples que me deixam muito surpreendido.

Foi uma semana duríssima, uma coisa extraordinária, e apesar do torcicolo ser já um problema do passado (recente) descobri que ao contrário do que pensava, a falta de tempo é mais amiga dos cigarros do que o ócio. Cada intervalo de dez minutos em que podia estar sem fazer absolutamente nada (penso que terei tido entre um a dois destes intervalinhos no total da semana) era um convite a um Camel fumado com a mente em branco, uma coisa parecida com o copo de água do despertar. Claro que sou já uma pessoa crescida nisto da resistência - fizemos no sábado passado 90 dias certinhos - e rapidamente volto ao normal sem recorrer a actos heróicos.

No entanto dormi pouco quase sempre e andei muito na rua. O meu leitor de mp3 continua com os mesmos oito álbuns (só tem 1GB) e eu já não os posso ouvir. Forma figurada de falar - ouço na mesma, que remédio - mas agora sei tudo sobre três ou quatro discos e há um ou dois, que até eram bons mas que morreram para sempre. Aconteceu-me nos últimos dois dias uma coisa menos habitual que foi andar de fato. Bom, andar de calças, camisa e casaco (diz-se blazer?), mas eu, um tipo que andou de calças de ganga e t-shirt na maior parte da sua existência, achei tudo isto uma grande novidade, pelo menos sem beberete, missa e copo d'água durante a tarde. Já se vê, por isto e pelos westerns, que descubro a pólvora a cada esquina, mas fico sinceramente impressionado com o conforto de roupa aparentemente tão desconfortável, sobretudo as calças. Não quero ser rude nem óbvio só que um homem sente-se seguro quando veste calças assim, embora a escolha dos boxers talvez tenha que ser mais criteriosa do que numas - agora, para mim - estranhamente universais calças de ganga.

Também é mesmo verdade, embora para isso já estivesse preparado, que as pessoas me falam de outra maneira, e não fico nada ofendido. Não só foi por isso mesmo e para poupar tempo que fui ter com essas pessoas assim vestido, como até eu fico muito mais impressionado comigo próprio, provavelmente por uma ilusão de competência de que felizmente só eu sei a verdade. Também pareço mais alto (portanto devo parecer ter uns 2,12 m) e mais magro.

Só não contava com os sapatos. Quem diz t-shirt e calças de ganga toda a vida, também diz sapatilhas a acompanhar e eu fui apanhado desprevenido pelos assassinos dos sapatos pelo que não tardei a coxear das duas pernas e a andar com grande dificuldade pelas ruas de Lisboa. O sofrimento (que me fez pensar num cigarro, como faz sempre) foi crescendo e no metro do Marquês, já quase no meu destino mas também já a arrastar-me, sou abordado por um sujeito que me disse que eu não podia viver desta maneira. Disse-me estas palavras num brasileiro paulista ou de Belo Horizonte, não sei dizer bem, mas era daqueles que carregam nos xx e que parecem americanos a tentar falar português, e agarrou-me no braço com franca solidariedade. Disse chamar-se Abinoan (pela minha saúde, ele soletrou e tudo) e quis que eu ficasse com o seu número de telefone, porque para minha sorte, ia ele dizendo, era especialista em reflexologia, shiatsu e massagens no geral, e que por 50 euros eu podia deslocar-me a sua casa em Algés, onde ele tinha óptimos óleos, uma música relaxante e que eu saíria de lá com um espírito e ego novos. E acho que também deixava de coxear. Nem por um segundo duvidei das boas intenções do Abinoan que transbordava honestidade a cada palavra, mas recusei educadamente. Aliás, não foi bem recusar, mas tentei explicar-lhe em vão que o problema era pontual e a causa estava bem identificada, mas não havia nada a fazer que o homem vendia massagens, não vendia sapatos. Optei por nem lhe falar do torcicolo, porque nesse caso o sentido de missão do Abinoan podia ser demasiado. Já tinha saudades de andar a pé por Lisboa durante o dia.

domingo, 4 de maio de 2008

Burning


O meu amigo Sérgio imagina o que será um bola de fogo a sair do esquentador em direcção às suas fuças. Eu posso explicar-lhe o que isso é e dar-lhe até a receita para o conseguir.

Só precisa de um esquentador em mau estado, sem isqueiro nem essas modernices de faíscas hidrodinâmicas ou pilhas, e de uma instalação de água quente. E também uma estupenda dose de estupidez. Quando tiver o material pronto a ser usado, experimente abrir a torneira de água quente e dirigir-se para a banheira. Quando reparar que a água está fria (se tiver sorte, isto acontece ainda antes de entrar no duche) saia da casa de banho e vá à cozinha verificar que o esquentador está apagado mas que continua a puxar o gás. Agora tem de ser rápido: antes que esse gás se dissipe, acenda um fósforo e espreite para dentro do esquentador para ver onde está o piloto.

Saboreie bem a breve parcela de segundo que se segue. Há uma ligeiríssima décalage entre o pensar que vai levar com uma chama nas trombas e o levar, efectivamente com a chama nas trombas. Se tiver sorte, a coisa passa tão depressa como um abrir e fechar de olhos e só se apercebe de que acaba de correr risco de vida quando nota um cheiro esquisito a carne queimada ou quando passa a mão pelas sobrancelhas e fica com uma mancha disforme de pêlos chamuscados na mão.

Prepara-se para ser gozado severa e alarvemente pelos seus companheiros de casa – eles riem-se para tentar evitar o facto de que o esquentador lhes pode fazer o mesmo serviço.

Agora tem duas notas mentais a fixar – se for preciso, escreva-as 100 vezes na parede: “Não vou acender o esquentador logo a seguir a fechar a torneira de água quente” e “Não vou pôr a cara em frente ao aparelho quando estou a acender a chama piloto”. Se isto lhe acontecer escassos dias depois de ter caído a um rio numa noite de Inverno, nem pense em deixar de fumar. O stress seria demasiado intenso. Adie essa decisão para uns seis ou sete anos mais tarde e aproveite bem cada cigarro.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Em chamas

A minha arrogância não podia trazer bons resultados. Não estive sequer perto de ser o primeiro a escrever vitrocerâmica num blogue e não estou a falar de blogues de imobiliárias ou de gente que quer vender a casa. Logo o primeiro que me aparece em destaque é uma coisa chamada Diário de uma Divorciada. Não é possível competir com uma coisa destas, penso eu logo à partida e bem, mas depois entro no blogue procuro o post em questão e a coisa ainda se agrava. É uma situação triste e mesmo que alguém tenha escrito num blogue absolutamente público que o ex-marido é um inútil que nem com uma placa de vitrocerâmica se entende, não deixo de sentir um certo desconfortozinho voyeur e desligo o blogue rapidamente. Ainda havia mais alguns resultados na lista, de blogues com rubricas como Dramas do Mulherio, Retaliações ou Problemas Domésticos, mas depois daquele primeiro não tive coragem para abrir mais nenhum (bom, li uma linha daquele das Retaliações, porque aparecia na página da pesquisa e dizia isto: «A mulher, quando saía de casa, levava consigo os bicos do fogão para que o marido não conseguisse aquecer a sopa». Isto é sério?, alguém sabe?).

Enfim, aquele primeiro post continuou a causar-me estranheza, porque de facto, que tipo de homem é que não se entende com um fogão em vitrocerâmica? É que eu estava convencido que a Fagor ou alguém assim tinha pensado exclusivamente nos homens quando inventou este fogão. Foram sempre mulheres que vi torcerem o nariz a esta maravilha da tecnologia, porque "não é a mesma coisa". Obrigado, claro que não é a mesma coisa, mas ninguém consegue dizer com firmeza que é pior.

Há a questão de não ter fogo. Tem uma placa negra assustadora que ao rodar um botão reflecte um bocadinho do inferno ali na cozinha, e, garanto-vos, chega a dar algum medo nas primeiras vezes. Só que não há uma única chama. Quando me mudei para esta casa vinha de uma longa tradição de fogões a gás, um dos quais com dois bicos apenas e fabricado na Fundição de Oeiras. Mas quando tive que comprar pela primeira vez electrodomésticos e fui apresentado àquele hino à limpeza fácil, nem pensei duas vezes e cheguei a dar por mim a imaginar uma casa livre de gás. Se optasse por não ter esquentador estaria livre de contas do gás e de instalações chatas de gás natural ou de andar a pensar em botijas. Um mundo de vantagens, mas alguma coisa parecia muito errada naquele cenário.

Acabei por instalar um esquentador a gás e só determinado dia, passados muitos meses, talvez anos, é que me descobri em casa sem isqueiro. Após alguns exercícios patetas e perigosos na inútil placa do meu fogão, lembrei-me em êxtase que restava ainda esse resistente da chama. Claro que o que não me restou foi um pingo de dignidade, enquanto abria a torneira para ter lume, deixava a água a correr, e praticamente encostava a cabeça ao esquentador no que me parecia ser sempre um convite para uma explosão em cheio na minha cara (eu não sou nada pessimista, mas há situações que promovem este tipo de imagens mentais). Há muitos milhares de anos que os lares das pessoas têm sempre qualquer tipo de chama e se calhar há uma razão para isso. Com o extra de que se for fumador pode estar a correr o risco de um dos piores pesadelos da classe. Ter cigarros e não poder acendê-los.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Forbidden


Nem tudo são más notícias para os pecadores neste fim de primeira década do século XXI. Diz que agora os tipos da Virgínia – e de outras partes desse máquina de produção de legislação bizarra a que chamam América – já podem, finalmente, beber sangria nos bares e restaurantes sem que o dono arrisque uma multa pesada. Parece que a perigosa bebida estava legalmente banida por conter misturas de várias bebidas espirituosas, um a coisa perigosíssima, como toda a gente sabe.

Aqui pela Velha Europa, mais concretamente aqui no rectângulo mais a ocidente, os estudantes de enfermagem de Vila Real lembraram-se de inventar uma bomba alcoólica a que chamam seringadela, capaz de embebedar um gajo em 10 minutos. A coisa leva Vodka e folhas de gelatina (quem é que se ia lembrar desta) e é servida em seringas –daí o nome da bebida. Não consta que haja alguém interessado em proibir a coisa, mas não deve tardar muito.

Com a honrosa excepção da sangria, o mundo todo caminha na direcção do proibicionismo. Quando um gajo já não consegue entrar num avião com um frasco de champô, começo a achar que estamos a ir longe demais. Não sei se é medo, se é parvoíce, se é uma mistura das duas. Estou convencido de que a proibição do tabaco deve demorar mais uns dez anitos no máximo. Prometo que nesse dia fumarei um cigarro.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Vidas simples

Pessoas como eu cresceram a ver filmes de duas maneiras: os que davam na RTP e os do clube de vídeo local, o Steps. Com o Steps aprendi tudo sobre os blockbusters dos anos 80 e ainda tive oportunidade de andar por meandros menos aconselháveis. O Ninja III, She - A rainha da guerra e do amor ou o Commando (média de 6.0 no imdb...), passavam sem filtro pelo cartão de sócio do meu pai e pela minha influenciável mente. Foi bom para relativizar. É em parte por isso que eu sempre soube que o Indiana Jones ou o Regresso ao Futuro são bons filmes, mesmo quando já havia gente mais retorcida que me dizia que não. Na RTP era tudo diferente, sobretudo porque eu era ainda mais novo e só me interessavam dois géneros de filmes. Os de piratas (que na verdade se resumem a dois com o Errol Flynn - sei tudo sobre o Dr. Blood e o Gavião dos Mares) e os de cowboys, estes sim, às dezenas, vistos com o meu pai e pipocas. A instituição das pipocas naquela casa era das mais valiosas que tínhamos, e foi a primeira coisa - digamos - cozinhada que eu soube fazer. Além disso o processo parecia-me extremamente solene, fosse pelo tacho exclusivo das pipocas, pela barulheira de tudo aquilo ou por a minha mãe não se importar que usássemos um pano de cozinha para limpar as mãos quando acabávamos de comer (tudo para salvar os sofás, agora compreendo).

Passado uns anos os meus filmes começaram a ser vistos em salas de cinema e o homevideo ressentiu-se. Também as pipocas ficaram mais raras, os filmes em casa passaram a ser acompanhados por cigarros estrategicamente colocados (como os do futebol). Nos últimos dias, naquilo que espero não ser uma crise de meia-idade, comecei a ver westerns e aventuras afins clássicas (o Blade Runner veio bem a calhar neste contexto) e fiquei preocupado com algumas coisas. A falta de pipocas foi o primeiro desconforto. Nem sei se os cigarros seriam sucedâneo suficiente e agora também não tenho como testar. Não tenho uma panela para pipocas, o meu fogão é de vitrocerâmica* e não sei se é possível fazer pipocas nestas condições. As de micro-ondas são um bom petisco mas não é a mesma coisa. Tenho tentado passar isto à frente, mas dava-me jeito encontrar uma solução nos próximos dias. Outro desconforto novo foi passar a gostar de ver o John Wayne e deixar de gostar do Clint Eastwood, uma situação que se inverteu diametralmente desde a infância. Comecei por ver o Rio Bravo e a Desaparecida de seguida e bastou-me para fazer opinião. Do Charles Bronson continuo a gostar da mesma forma, valha-me isso. Uma outra situação grave é que a maior parte do que se passa nestes filmes, e que eu devia lembrar-me com alguma clareza, passou-me completamente ao lado quando os vi em miúdo, aparentemente. E ainda estou a falar só de guiões, argumentos, etc. A surpresa maior estava reservada para mais tarde: eu fazia lá ideia que havia mulheres nestes filmes! Está um tipo descansado a ver cowboys e a Claudia Cardinale sai de um comboio, a Angie Dickinson desce de uma diligência, a Natalie Wood está dentro de uma tenda de índios. Mas o que é isto? Juro que não sabia de nada até há poucos dias atrás.

O torcicolo está quase bom, também graças a isto. Um saco de água quente, um bom sofá, um relaxante muscular (são comprimidos) e westerns em sessões contínuas garantem resultados infalíveis.

*É bem possível que seja a primeira vez que esta palavra foi escrita em toda a blogosfera nacional.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Os andróides sonham com cigarros eléctricos?

Era importante caminhar para outros problemas em breve e se fosse possível fechar o blogue rapidamente. Os meus problemas actualmente são canalizados num único sentido, que é a sua relação com cigarros. Ontem vi o Blade Runner pela primeira vez em 20 anos, altura que o vi na televisão em pré-adolescência. Nunca calhou vê-lo desde então, mas conheço-lhe bem o folclore, e sei como são estas coisas dos cultos. O que quero dizer é que não queria arriscar mas um dos elementos que mais se destacou nesta pobre mente foi o fumo dos cigarros. Reparem que eu penso que sei apontar todos os cigarros fumados ao longo do filme: O tipo que faz o primeiro teste ao Leon, no início do filme, está a fumar; o chefe da polícia enquanto visualiza este mesmo teste, está a fumar; a Rachel/Sean Young está a fumar no teste dela. (Optei por não ligar a umas boquilhas compridas num bar). A minha vida é isto agora. Vejo um marco histórico do cinema quase pela primeira vez e fico preso a cigarros fumados por replicantes e intrigado pelas razões que os fazem fumar. Malta do Blade Runner já me tem dado a desarmante resposta "porque podem" e mudam de assunto, aborrecidos comigo como se eu tivesse estragado uma boa anedota com perguntas desnecessárias.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Otis Reading

Há um texto de poucas linhas do Julio Cortázar daqueles que soam a filosofias de trazer por casa mas que inevitavelmente são verdadeiros, que conta que quando nos oferecem um relógio nunca nos oferecem apenas um relógio mas também o medo de ser roubado ou de o perder, a obrigação de lhe dar corda, o vício de ver as horas constantemente e mais uns quantos brindes do género. Quando se começa a fumar também ninguém é prevenido para alguns dos novos comportamentos que aí vêm. Podemos ser prevenidos para a doença, mal-estar, o dinheiro que se perde, cheiros desagradáveis, enfim, as listas são conhecidas e extensas, mas é raro ser avisado dos planos que vamos fazer antes de uma viagem, dos cafés onde não vamos querer estar por não se fumar e do desconforto de prever a falta de cigarros e ter que fazer alguma coisa por isso, ou o pior de todas, ficar sem tabaco e não poder fazer nada para voltar a ter.

Falhei sempre do alto nestes planeamentos e era frequente ficar sem cigarros, portanto também era frequente sair tarde de casa para ir a uma bomba comprá-los. De todas essas vezes lembrava-me e invejava o Philip Seymour Hoffman no Magnolia, enquanto fazia de enfermeiro, a telefonar para uma loja e pedir comida e um maço de cigarros para entregar em casa. Fiquei tão impressionado com a utilidade daquele serviço que tenho a imagem desse telefonema mais presente do que a chuva de sapos. Eu que sou um rapaz tímido não hesitei nunca em pedir um cigarro a desconhecidos se precisasse, fiz sempre os desvios mais complicados se fossem necessários para comprar cigarros, mas nunca me permitiria ficar sem tabaco se o pudesse evitar. Durante anos fiz semanalmente viagens para Lisboa pela A1 ou de comboio. O comboio nunca me trouxe problemas. À altura havia carruagens para fumadores e vendia-se cigarros. O autocarro expresso era outra preciosidade em que se podia fumar no piso inferior, que até era bastante mais confortável. Os anos 90 começam a parecer um sítio distante. Só que havia uma característica nessa altura que se esbateu, mesmo que as minhas viagens sejam agora muito menos frequentes: a facilidade com que a auto-estrada entupia ou que o comboio tinha que parar. Por horas. Aconteceu-me mais vezes do que gostaria ficar parado por mais que duas horas, mas por sorte só numa delas estava sem cigarros, e estava de carro sozinho a dez quilómetros de uma estação de serviço. Uma fila parada é aborrecido, sem cigarros é desesperante. Era por me sentir sempre assim na falta ou perspectiva de falta de cigarros que achava que era impossível deixar de fumar. Se era assim por períodos de meia-hora o que seriam dias inteiros.

Por esta altura já toda a gente deve ter visto o vídeo de Nicholas White preso num elevador. Após uma pausa para fumar, para o que teve que descer do 43º andar do edíficio onde trabalhava até à rua, o homem meteu-se num elevador expresso (sem paragens até ao 39º andar) que a meio da viagem parou. Por 41 horas. Ele tinha três cigarros, tinha deixado telemóvel e relógio no escritório. Elevadores e cigarros tendem a não combinar bem. Nick Paumgarten escreveu para a New Yorker sobre White e elevadores no geral, da quase impossibilidade destes cairem ou de alguém ficar realmente ferido por culpa de um elevador e do medo (ou respeito, vá) que tanta gente tem de andar num. A fobia está muito mais direccionada para o medo de ficar a pensar horas sozinho do que com a possibilidade de acidente. E no meio de tanta coisa que se pode escrever sobre elevadores há quase sempre um cigarro, no texto. Os do White, sobretudo. Noutros tempos teria lido este relato avidamente como quem lê o mais angustiante dos contos de terror, mas agora não. Rapidamente passei da história do prisioneiro para o deslumbramento por elevadores. Se puder mudar de emprego agora quero ser técnico de elevadores. Tudo aqui.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Oceano Pacífico

Estranhamente depois da cigarrilha tudo ficou mais calmo. Houve algum receio enquanto a fumava, posso confessar agora. Quando engoli a minha primeira pastilha elástica aconteceu-me o mesmo e nem contei aos meus pais por medo, eles que sempre tiveram o bom-senso de me afastar daquele meu primeiro alcatrão. Concluí que ia morrer em poucas horas e perguntei desesperado a um amigo mais velho se havia ainda algo a fazer naquela situação-limite da minha vida. O gajo riu-se e contou-me que já tinha engolido mais de uma dezena e que não acontecia rigorosamente nada. Achei isto um bocado irresponsável de se dizer a um miúdo e, pelo sim pelo não, não voltei a fazer o mesmo (bom, aqui há atrasado - coisa de semanas - aconteceu-me comprar aqueles melõezinhos verdes numa loja de gomas e engoli propositadamente uns oito ou nove antes de me aperceber, com um dos últimos que quis que durasse mais, que aquilo nunca mais se desfazia e que talvez fosse por estar a mastigar pastilha elástica. Alguém sabe se são realmente?). Importante nisto é a irresponsabilidade do outro que me disse que não fazia mal, ruindade em que talvez eu próprio caia por vezes aqui. Quando fumei a cigarrilha pensei que se calhar era tudo verdade e que o vício ia regressar em força no momento exacto em que puxasse a primeira baforada e afinal é este sossego passados estes dias. Portanto, caros, um bocadinho de pedagogia: deixar de fumar é bem fácil, aqui e ali é divertido, e num instante vai parecer que nunca pegaram num cigarro. Mas convém lidar com papão do vício como quem lida com o mar ou a trovoada. Sem medos mas com respeitinho.

domingo, 20 de abril de 2008

The blue moods of Spain


Já voltei há nove dias, mas o espírito ainda não regressou completamente. A semana que passei na pátria dos caramelos tornou ainda mais difícil a já de si árdua tarefa de dizer mal de Espanha e dos espanhóis. Esta coisa de olhar para a fronteira com desconfiança e desdém está-nos no sangue. Mais, fomos educados para detestar os espanhóis, esses cobiçosos arruaceiros que sempre nos quiseram anexar. É pena que os mitos caiam assim, porque os mitos dão trabalho a criar e mais ainda a manter e a passar de geração em geração.

Os espanhóis meus caros, sabem viver bem melhor do que nós. Sabem acordar mais tarde, sabem dormir a siesta, sabem sair à noite todos os dias, sabem aproveitar ao máximo as horas úteis do dia. Sabem que petiscar em vez de jantar é uma coisa bem divertida. Sabem fazer dos fumados e enchidos uma presença constante na vida do indivíduo, em vez de ser um luxo ocasional.

E sabem outra coisa não menos importante. Os espanhóis perceberam há muito que as regras que Bruxelas quer impor a todo o continente só são boas para serem aplicadas até aos Pirinéus. Fizeram uma lei do tabaco que deixou a cada estabelecimento decidir se o fumo entra ou fica à porta. O resultado, mau ou bom, não me vou pôr a discutir isso aqui e agora, é que se fuma em 90 por cento dos bares e cafés. Quando muito, há uns audaciosos que criaram zonas de separação, mas sem divisórias nem as 505 mil regras que o nosso Governo inventou para tornar absolutamente incompreensível o modo de funcionamento de um bar com áreas para fumadores e não fumadores.

Apesar de ter abandonado a causa, gostei de ver os meus amigos fumadores a beber e fumar em simultâneo outra vez. Pode-se manter uma conversa à mesa sem ter de se ir lá fora apanhar chuva e frio. Há pequenas coisas cujo valor só nos apercebemos quando as perdemos. Ah, e os gajos ainda usam orgulhosamente essa coisa perigosíssima que é o galheteiro. Aqui os “bons alunos” lamentam-se. Os gajos divertem-se.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O que uma pessoa sofre

Não tem sido uma semana nada fácil. Pode-se começar pelo meu estado actual: eu estou com um torcicolo cuja amplitude se estende por todo o meu braço esquerdo. Suponho que sou uma pessoa que desenvolve torcicolos por puro azar, não vejo que outra explicação pode haver. Um torcicolo - condição que deve ter uma designação um pouco mais credível, mas não sei qual; distensão parece-me incompleto - aparece sempre subrepticiamente enquanto se trabalha, sentado em frente a um computador e faz-nos pensar que estamos só cansados. Na manhã seguinte é quase certo que vou acordar de pescoço preso para o lado. Mas isto foi na quarta-feira de manhã, e confesso que me vou habituando a acordar assim amiúde, mas por alguma razão nunca respeito os torcicolos e isto acaba sempre mal.

Aqui há dois anos estava com uma coisa destas no pescoço e quando me preparava para atravessar a cozinha, parei para espirrar, que é uma coisa que eu faço bastante bem, sendo que às vezes gosto de colocar algum vigor no processo. Assim que espirrei, senti um choque que partia da parte dorida do pescoço e que disparou como um chicote até à minha mão esquerda, imobilizando imediatamente todo o meu lado esquerdo até à cintura. A única solução foi mergulhar imediatamente e em grande esforço para o sofá e ficar esticado tentando não desmaiar com as dores no pescoço e braço e procurando ignorar as gargalhadas da minha mãe e irmã que presenciaram com grande satisfação a tudo isto.

Em pouco mais de uma hora consegui desenvolver uma posição que consistia em estar com o braço esquerdo completamente erguido acima da cabeça que teria que tombar o mais possivel para a direita, posição na qual as dores já não provocavam aqueles pontinhos brancos à frente dos olhos. Passadas duas semanas já estava quase bom e pelo meio pude ter oportunidade de experimentar emplastros (não eram Leão), que são menos eficazes do que eu esperava. Até à semana passada, dois anos depois, já conseguia mover novamente todos os músculos sem dificuldades e o único apontamento que ficou foi uma ligeira perda de sensibilidade no indicador esquerdo, coisa que vim a descobrir dar muito jeito para tocar baixo.

Na última quarta-feira fui ver um jogo de futebol que houve e nem fui tarde para casa, ontem até acordei quase bom. Hoje de manhã, grato por mais uma sexta, acordei e levantei-me para um copo de água. Como ainda só estava cinco minutos atrasado, voltei para a cama um pouco mais e antes de me levantar mandei uma apetecida e enérgica espreguiçadela que me atirou para o estado em que me encontro agora. Só me espreguicei, felizmente, mas estou apavorado que algo me faço espirrar nas próximas horas. Diria que não é tão grave como há dois anos, mas voltei a saber o que é não ter posição para todo um braço.

Gostava que acreditassem que sou uma pessoa saudável e que não compreendo o que são estas coisas que me vão acontecendo. Tinha planos para este blogue que não eram estes, e até pensei tentar inventar um email para pôr ali no cabeçalho (recebi sugestões espectaculares, talvez venha a fazer uma poll). Momentos bons, há dois anos foram os cigarros que fumava encolhido enquanto esperava que pomada, emplastro e anti-inflamatórios fizessem efeito. Não tem sido nada fácil esta semana para mim e para o Rui Costa.